Autor: Cauê Sanchez
É sobre verdade, responsabilidade e o tipo de sociedade que estamos construindo
O que fazemos quando a verdade parece confusa, a dor é real e o silêncio se torna confortável demais?
Quando a realidade nos atravessa
Você já deve ter vivido isso: abrir o celular entre uma aula e outra, no intervalo do trabalho ou antes de dormir, e se deparar com uma notícia que incomoda. Algo que não dá para “pular o story” e fingir que não viu.
Nos últimos dias, muitos jovens — espíritas ou não — acompanharam informações contraditórias, imagens chamadas de “ilustrativas” apresentadas como prova e uma investigação que ainda está em andamento. No meio disso tudo, uma certeza já existe: uma vida foi interrompida na matéria.
Independentemente de desfechos jurídicos, likes, posicionamentos ou disputas de narrativa, algo nos atravessa como humanidade. E isso pede reflexão, não pressa. Pede responsabilidade, não indiferença.
A palavra-chave que nos convoca: responsabilidade espiritual
No Espiritismo, aprendemos que não somos responsáveis apenas pelos nossos atos individuais, mas também pelas estruturas que sustentamos, pelo que normalizamos e pelo que escolhemos ignorar. Allan Kardec nos convida a olhar o ser humano — e a vida — como parte de uma engrenagem moral e coletiva, em constante construção [1].
Quando a verdade vira detalhe, quando a dor do outro se torna “assunto cansativo”, quem sofre é sempre o mais vulnerável. Isso vale para pessoas, para animais, para grupos silenciados e para consciências que ainda estão aprendendo a sentir.
Se não foi você quem fez, mas você viu e seguiu em frente sem pensar, qual é a sua parte nisso?
Verdade não é espetáculo.
Verdade, ética e justiça no Espiritismo
Vivemos a era da hiperexposição. A neurociência já nos mostra que o excesso de estímulos e informações reduz nossa capacidade de empatia profunda: sentimos rápido, reagimos rápido e esquecemos rápido. Mas o Evangelho nos chama a outro ritmo: vigiar, sentir, discernir [2].
No Espiritismo, verdade não é usada para humilhar, confundir ou manipular. Ela é caminho de libertação. Quando imagens “ilustrativas” são apresentadas sem o devido cuidado, quando informações são lançadas sem responsabilidade, cria-se um ambiente onde a ética perde espaço para a narrativa mais conveniente.
Isso não é apenas um problema jurídico ou midiático. É um problema espiritual e social.
O Evangelho também é posicionamento.
Espiritismo e política do bem comum
Existe uma ideia equivocada de que espiritualidade precisa ser neutra para ser “pura”. Mas neutralidade diante da dor não é virtude — é omissão. O próprio Evangelho segundo o Espiritismo nos lembra que a justiça divina se manifesta na defesa dos pequenos, dos frágeis e dos que não têm voz [3].
Falar sobre esse caso não é politizar por vaidade. É reconhecer que o Evangelho de Jesus também se expressa na ética pública, no cuidado com os menores — humanos ou não — e na coragem de se posicionar diante do que machuca.
A filosofia moral já nos ensina: toda sociedade é definida não apenas pelo que condena, mas pelo que tolera.
E o Espiritismo acrescenta: somos corresponsáveis pelo mundo que ajudamos a construir, pensamento por pensamento, escolha por escolha [4].
E nós, nos espaços espíritas e na mocidade?
Como esse debate chega:
na casa espírita?
no grupo de mocidade?
nas conversas de corredor, no grupo do WhatsApp, nas redes sociais?
Silenciar não protege o jovem. Moralizar afasta. Cancelar não educa.
O que educa é o diálogo honesto, o acolhimento das dúvidas e a coragem de dizer: isso nos dói, isso nos interpela, isso nos chama a crescer.
Na psicologia, sabemos que elaborar uma dor é muito diferente de reprimi-la. Na vivência espiritual, isso é ainda mais profundo: o que não é cuidado, endurece. E dor endurecida vira indiferença, cinismo ou agressividade.
Que tipo de consciência estamos formando quando evitamos conversas difíceis?
Um “novo irmãozinho” que nos chama à consciência
O cão Orelha — esse “novo irmãozinho” — nos convida a algo maior do que revolta ou esquecimento rápido. Ele nos chama a olhar com mais consciência, mais compaixão e menos pressa por julgamentos.
Não se trata de apontar culpados antes da hora, nem de transformar a dor em palco. Trata-se de lembrar que toda vida importa, e que espiritualidade sem compromisso com a verdade e com a justiça se torna apenas discurso bonito.
Espiritismo não é neutralidade diante da dor.
É amor em movimento.
Para seguir pensando (e agindo)
Onde eu me informo?
Como eu compartilho?
O que eu escolho sentir e o que eu escolho ignorar?
Meu silêncio protege quem?
Vigiar, orar e agir não são verbos abstratos. São práticas diárias, especialmente quando o mundo nos testa.
Que tipo de sociedade estamos construindo — e qual é, de fato, o seu papel nela?
E você?
Diante de tudo isso, o que sente que precisa rever, aprender ou transformar em si para viver um Espiritismo mais verdadeiro no mundo de hoje
Referências
[1] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – (Lei de Sociedade e Responsabilidade Moral – questões 642 e 917)
[2] Allan Kardec – O Evangelho segundo o Espiritismo – (Vigiar e Orar – capítulos XVII e XXVII)
[3] Allan Kardec – O Evangelho segundo o Espiritismo – (Justiça Divina, Misericórdia e os Pequenos – capítulo XI)
[4] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – (Progresso Moral e Coletivo – questões 785 a 793)




