Reconhecimento e gratidão

Autora: Martha Triandafelides Capelotto

Todas as manifestações de nossa alma, sejam elas positivas ou negativas, merecem a nossa atenção no sentido de busca para o nosso aperfeiçoamento moral e espiritual, atendendo a um dos aspectos mais relevantes do Cristianismo, que é a transformação da criatura. Desenvolver a intelectualidade, progredirmos tecnologicamente falando, faz parte da Lei do Progresso, mas esta, para ser completamente atendida, deverá abranger o principal, que é descobrirmos quem somos, quais as mazelas que ainda enfeiam nossas almas e transformá-las em virtudes.

Dentre tantas manifestações de nossos sentimentos considerei que seria interessante abordar o tema reconhecimento e gratidão, já que, incontáveis vezes nos sentimos abatidos pela ingratidão daqueles que nos cercam, por não serem capazes de reconhecer os nossos “esforços” e valores” (aqui colocados em aspas, pois nós nos supervalorizamos em tudo aquilo que fazemos). Assim, gastamos energias preciosas, sem procurarmos saber o que está por detrás desse sentimento desalentador e desencorajador de realizações no bem. É comum ouvirmos e falarmos que fazer o bem não vale a pena, que quanto mais a gente ajuda mais ingratidão sofremos, e tantas outras expressões que revelam a nossa frustração com as atitudes alheias.

Vamos, então, analisar rapidamente, escorados, baseados em ensinamentos de Espíritos iluminados, quanto agimos equivocados ou, em outras palavras, enganados a respeito dessa questão.

Conforme preleciona Cairbar Schutel, na sua obra Parábolas e Ensinos de Jesus, reconhecimento e gratidão são duas expansões da alma que marcam o estado moral de cada um de nós (quando falamos em estado moral, significa a evolução espiritual de cada um, a maturidade do espírito. Quanto mais evoluirmos, menos suscetíveis de melindres e desejos de que o outro nos compreenda). Assim, o reconhecimento é o testemunho da genuinidade de uma coisa, de um fato, de uma pessoa, que nos aproxima da verdade; um ato de discernimento que tanto pode nos aproximar do bom ou do mau juízo que façamos de um objeto ou uma pessoa. Como virtude moral, o reconhecimento é o princípio da gratidão e, por estar atrelado ao grau de discernimento espiritual (discernimento é compreensão), obedece sempre ao espírito do julgador; o reconhecimento, como produto do benefício, é a confissão do bem, pelo bem que o bem nos fez.

A gratidão, por sua vez, grava a ideia do bem e mantém, pelo autor do benefício, vivo sentimento de carinho, avivando a lembrança do benfeitor, confirmada pela razão e sancionada por gesto do coração.

Assim, podemos afirmar que há reconhecimento e há gratidão, onde o reconhecimento para, por não poder continuar seu caminho, começa a gratidão num sulco de luz que nos levará num caminho ascensional para a Eternidade.

Muitas são as almas reconhecidas e poucas as que têm gratidão. Lembremos a passagem evangélica, na qual Jesus curou dez leprosos, mas apenas um voltou para dar graças ao Senhor, assim também como doutores, escribas, fariseus, governadores e césares, depois de reconhecerem o Poder do Verbo Divino, resolveram crucificar o inocente. E aquele mesmo que, depois de haver mostrado o seu reconhecimento na mais alta expressão de inteligência, lava as mãos ao derramamento de sangue e acede ao sacrifício da vítima, porque não teve coragem de ser grato.

O mundo está cheio de reconhecidos e vazio de gratidão.

Nós temos em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 19, um precioso ensinamento com relação àquilo que falamos no início, sobre não queremos mais fazer o bem por receio da ingratidão.

Vejamos o que ele diz: “As pessoas têm mais de egoísmo do que caridade, porque não fazer o bem senão para dele receber sinais de reconhecimento é não o fazer com desinteresse, e o benefício desinteressado é o mais agradável a Deus. Aquele que procura na Terra a recompensa do bem que faz, não a receberá no céu; mas Deus terá em conta aquele que não a procura na Terra. É preciso sempre ajudar os fracos, mesmo sabendo de antemão que aqueles a quem se faz o bem não estarão contentes”. E diz mais: “Deus permite que sejais pagos, por vezes, com a ingratidão, para experimentar a vossa perseverança em fazer o bem”.

Também devemos lembrar-nos e guardar isso como estímulo para continuarmos a fazer o bem. É que um benefício pode ser esquecido no momento, mas poderá mais tarde render bons frutos, como uma semente que foi lançada e germinará com o tempo.

Os benefícios acabam por abrandar os corações mais endurecidos; eles podem ser menosprezados neste mundo, mas quando o Espírito se desembaraçar do seu envoltório carnal lembrar-se-á, e essa lembrança o atormentará; então, lamentará a sua ingratidão e quererá reparar a sua falta, pagar sua dívida noutra existência, frequentemente, aceitando uma vida de devotamento para com o seu benfeitor. É assim que, sem que suspeitemos, teremos contribuído para o seu adiantamento moral e reconheceremos, mais tarde, toda a verdade desta máxima: Um benefício jamais se perde; além de termos trabalhado em nosso próprio benefício, porque teremos feito o bem com desinteresse e sem nos deixarmos desencorajar pelas decepções.

Desse modo, trabalhemos incessantemente no bem, fazendo tudo o que pudermos para o nosso próximo, sem nos afligirmos ante as ingratidões que nos convidam ao testemunho de amor, pois ninguém transita pelos rumos da Terra sem sorver a taça da ingratidão, ingratidão que desde ontem aparece e reaparece em todas as vidas.

No livro Ave Luz, numa das histórias ali relatadas, e essa em especial, é Jesus falando com Tiago sobre o que é gratidão, quando, dentre tantas palavras lindas e sábias, ele diz assim:

“O reconhecimento é a resposta da prática da caridade. Se fazes o bem constantemente e ainda não foste alvo da gratidão, não esmoreças com isso. Ela deve estar a caminho. Se não for pelo objeto visado pelo teu amor, será pelos meios que Deus sempre usa para nos premiar, mas sempre receberás em troca daquilo que dás. E se queres ter um lugar de maior relevo no coração da vida, nunca deves pensar no comércio dos próprios dons espirituais. A exigência desnorteia os valores da alma e a troca interesseira entorpece a dádiva”.

Uma outra colocação sobre o que seja gratidão, tirada da mesma lição, diz assim:

“Gratidão não significa compromisso com o benfeitor. É completamente ao contrário. Ela nos liberta da dívida, quando a consciência exige de nós alguma paga. Quando fazeis alguma coisa malfeita, não é o arrependimento que abre as portas da reparação? Ao receber algo de bom dos outros, é o reconhecimento que desperta em vós o amor, que existe em todas as almas e que, por vezes, dorme. O amor é a verdade e a verdade sempre liberta as criaturas das amarras da ignorância. Não vamos ficar repetindo gratidão em voz alta para todos os que passam a reconhecer em nós virtudes que às vezes não existem, eis a falsa gratidão. Ela opera no silêncio da conduta e, quando a oportunidade chega, é bom que se prove, com a naturalidade que a sinceridade expressa, que não somos petrificados, mas sim sensíveis àqueles que nos ajudam no caminho e procuram aliviar a nossa cruz. A caridade é Deus se fazendo visível para nós por intermédio dos outros e a Gratidão é o mesmo Deus se expressando aos outros pelo que eles fizeram por nós. E é por essas vias que o amor que temos a Deus sobre todas as coisas começa a nos fazer sentir que devemos tê-lo para com o próximo, amando-o como a nós mesmos.” 

E, finalizando, vamos tentar reiniciar nossos conceitos sobre reconhecimento e gratidão, aproveitando mais um ensinamento de Cairbar Schutel quando ele preleciona que no reconhecimento só age o interesse e, na gratidão é o amor que fala. O reconhecimento é o princípio inteligente que nos aproxima da verdade; a gratidão é um dever que a ela nos alia.

Na vida particular, como na vida social, há reconhecimento e gratidão; mas aquele, quando lustrado pela nobreza de caráter, é o princípio em que germinam as graças que nos dão a pureza de sentimento. O reconhecimento é, para a gratidão, o que a bolota é para o carvalho. Assim como aquela (a bolota) só se transforma em árvore por força do tempo e poder dos elementos, o reconhecimento só se caracteriza em gratidão depois de um cultivo acurado da Lei do Amor lembrada pelo Cristo.

O consolador – Ano 18 – N 884 – Especial

MORADOR DE RUA TEM NOME, TEMHISTÓRIA, TEM VALOR

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