Salvemo-nos!

Autor: Rogério Miguez

Salvação – libertação e preservação do Espírito contra o perigo de maiores males, no próprio caminho, a fim de que se confie à construção da própria felicidade, nos domínios do bem, elevando-se a passos mais altos de evolução.”1

A definição transcrita acima foi elaborada por um antigo médico da Terra, ainda desencarnado até onde sabemos e popularmente conhecido entre os espíritas com o nome de André Luiz. Inserida no livro O Espírito da Verdade, compõe uma relação de outras significativas e bem delineadas definições. Vale a pena que todas sejam lidas e detidamente analisadas.

Nesta, trata o autor espiritual do tema Salvação, preocupação de muitos, talvez da maioria espírita, porquanto, salvar-se ainda se apresenta como um desfecho incerto ao final desta vida, e nada garantido.

O tema ganha conotação especial entre os espíritas, pois, em plena fase de transição planetária, quando este mundo deixará de pertencer à categoria de Provas e Expiações avançando para Regeneração, todos se perguntam apreensivos: após esta vida, serei merecedor de permanecer na Terra, ou serei “convidado” a reencarnar em outro planeta, sendo esta uma das possibilidades de entendimento do conceito espírita para se salvar?

A preocupação ganha força quando se faz uma ligeira e despretensiosa comparação, porquanto, se muitos Espíritos de Capela, altamente evoluídos tecnologicamente, devido a condutas morais destoantes daquelas características do conjunto dos habitantes encarnados naquele corpo celeste, foram degredados para o planeta Terra há alguns milhares de anos, quando este mundo ainda se encontrava em uma condição de quase barbárie, caso não promovamos a própria salvação, indagamos hesitantes: para qual mundo seremos encaminhados a reencarnar, considerando que os que se salvarem, se assim o desejarem, continuarão neste orbe!?

A proposta da salvação, conforme esclarece André Luiz, destaca a necessidade de nossa libertação e consequente preservação de males maiores, pois males menores já os estamos vivendo em larga escala, e há bom tempo, frutos amargos de nossa imprevidência e inobservância das Leis Divinas, nesta própria e em várias outras vidas pregressas.

De fato, enquanto permanecermos prisioneiros das paixões e do nosso desmedido ego, jamais alcançaremos a condição da salvação, cativos que estaremos das nossas próprias mazelas morais. Salvar-se pode significar libertar-se, porém, de quem ou do quê? De si mesmo e das apaixonadas e viciantes condutas forjadas e construídas em nosso passado, por nós mesmos e em nós mesmos. São traços de nossa personalidade atual que agora já percebemos não nos interessar manter, entretanto, estas tendências natas permanecem vivas e atuantes, com possibilidade concreta de nos desviar da rota precisa, exigindo, assim, esforço redobrado de nossa parte para eliminá-las definitivamente e por completo.

Em seguida, André Luiz elucida: salvar-se conduz à felicidade, porém, esta não é uma conquista vã garantindo apenas acesso às regiões celestiais próximas de Deus. Não! Sentindo-se salvo, o Espírito já desfruta agora da felicidade, não precisando aguardar a desencarnação para só então usufruir as “merecidas” benesses, como se estas representassem um prêmio para os seus esforços continuados em bem viver. A conduta reta já proporciona desde agora um bem-estar imenso, conferindo àquele que a vivencia e experimenta, momentos de plena satisfação e paz interior, a se traduzirem por um sentimento íntimo de que já está salvo, ou pelo menos trilhando o caminho certo.

Finalmente, salvar-se para quê?, conclui André Luiz: para se elevar a passos mais largos e seguros em nossa própria evolução, tarefa pessoal, impostergável e intransferível. O objetivo é simples: evoluir mais, melhorando o entendimento das Leis de Deus e consequentemente integrando-se de forma plena e definitiva na obra celeste, conferindo-nos, em consequência, a condição de participar como cocriadores do Universo, sempre com orientação divina.

Em outra forma de se enxergar o tema, a proposta espírita também sugere a seus seguidores e adeptos a simples observância dos preceitos muito bem vividos pela nossa maior referência: Jesus, o Cristo de Deus. A redenção acontecerá naturalmente com o cumprimento das recomendações do Mestre dos Mestres, materializada em seus inúmeros exemplos de vida.

Nos relatos dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, estão registradas lições precisas e preciosas, e todos nós necessitamos aprendê-las e principalmente praticá-las. Coube à Doutrina o papel de reavivar aqueles tempos memoráveis, proporcionando condições de se recuperar a singeleza da forma de se adorar a Deus, tão bem expressa pelo Rabi da Galileia, e mais, explicando, complementando, trazendo novos e interessantes exemplos educativos de muitas vidas, nos relatos dos Espíritos desencarnados que, nos últimos tempos à mercê da Misericórdia Divina, ressuscitaram em massa dos seus túmulos, não com os seus corpos consumidos e carcomidos pelo tempo, mas com as suas vestes perispirituais, com o único e exclusivo fim de nos incentivar a seguir apenas o caminho do bem, atitude segura a nos conferir certamente uma posição futura entre os justos.

Ainda com Ele, agora no Sermão do Monte, nosso Amigo Incomparável ajuda-nos apontando um outro possível caminho a todos os desejosos de permanecer na Terra, e o faz magistralmente, por meio da terceira bem-aventurança, quando ensina: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mateus 5:5).2 Qual o significado deste preceito, perguntamos temerosos e de acordo com os nossos acanhados conhecimentos das máximas eternas? Interpretando literalmente a resumida frase, mas de profundo significado e alcance, pode-se afirmar que todos aqueles que se fizerem cordatos, brandos, tolerantes, dóceis, em suma, mansos, terão lugar garantido neste mesmo planeta, em futuro próximo.

A posição doutrinária é direta e cristalina: salvar-se-ão todos aqueles seguidores do caminho do bem, de modo amplo, total e irrestrito, dentro de suas possibilidades e empregando cada um os seus variados talentos presentes na atual existência.

Voltando a André Luiz, percebe-se que ele, com poucas palavras, também foi muito feliz ao delinear, sucintamente, uma bússola segura indicadora do norte da salvação. Usemo-la, pois, hoje e sempre!

Referências

1 XAVIER, Francisco C., VIEIRA, Waldo.O Espírito da Verdade. Autores diversos. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 1982. cap. 8 – A rigor.

2DIAS, Haroldo Dutra.O Novo Testamento. Autores diversos. 1. ed. Brasília: FEB Editora, 2013. pág. 49.

O LIVRO DOS ESPÍRITOS:O NASCER DO ESPIRITISMO

O nascimento do Espiritismo ou Doutrina Espírita aconteceu no dia 18 de abril de 1857, quando foi lançada a obra O Livro dos Espíritos, assinada por Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Leon Denizard Rivail, ocorrido na cidade de Paris, em plena Europa da metade do século XIX. Antes dessa obra muitas doutrinas religiosas, por serem espiritualistas, já...

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