Visão espírita

Autor: Fernando Hora

Nos dias atuais, a tecnologia permite que praticamente todos emitam parecer público sobre qualquer assunto. Como consequência, observamos pessoas sustentando, por exemplo, nas redes sociais, que a Terra é plana — algumas vezes ao arrepio do próprio ícone circular do planeta que identifica o status “público” em determinadas plataformas.

O filósofo e historiador romano Plínio — o Antigo, nascido no ano 23 e falecido em 79, na erupção do Vesúvio que se propôs a estudar, relata, em sua obra *História Natural*, uma anedota elucidativa. Um pintor de nome Apeles, desejando aprimorar suas obras, tinha por hábito expô-las ao público para ouvir, sem ser percebido, os comentários que suscitavam. Ao apresentar o quadro de uma mulher, um sapateiro teria notado uma falha na representação das sandálias, observação que o artista prontamente acolheu e corrigiu. Ato contínuo, o mesmo sapateiro passou a opinar sobre o vestido, quando foi interrompido pelo autor com a advertência “ne sutor ultra crepidam”, isto é, “não vá o sapateiro além das sandálias”. A expressão tornou-se célebre como reprimenda ao ato de opinar sobre aquilo que extrapola o campo de competência de quem fala.

Com a divulgação do Espiritismo por meio da internet, tornou-se comum encontrarmos conteúdos que se apresentam como portadores da chamada “visão espírita” sobre os mais variados temas. Não raramente, tais abordagens extrapolam aquilo que pode ser legitimamente considerado o campo de aplicação da Doutrina, que o Codificador teve o cuidado de delimitar: o estudo das leis do mundo espiritual e de suas relações com o mundo material.

Em tempos marcados pela desinformação, impõe-se um cuidado redobrado para que, conforme advertiu reiteradas vezes o Codificador, equívocos não sejam atribuídos ao Espiritismo. Um ponto particularmente sensível reside na correta interpretação da expressão “visão espírita”. Se entendermos tal formulação como significando “a visão DO ESPIRITISMO”, seria legítimo indagar, por exemplo, qual seria a visão espírita do futebol ou do carro elétrico. Poder-se-ia até ensaiar algum comentário à luz da Lei do Progresso ou da reencarnação, explicando a habilidade inata de certos atletas, como Pelé; contudo, convenhamos, isso pouco ou nada acrescentaria ao tema em debate. A razão é simples: tais questões escapam ao campo de competência do Espiritismo, cuja finalidade essencial é oferecer respostas às grandes questões existenciais e orientar a conduta moral.

De modo diverso, se a leitura da referida sentença remeter à “visão DO ESPÍRITA”, o sentido altera-se substancialmente e passa a ser pertinente. Nesse caso, tratar-se-ia de especular sobre o posicionamento de uma pessoa que busca orientar-se pelos ensinamentos espírito-cristãos diante de determinados fatos da vida. Nessa equação, consideram-se naturalmente as imperfeições compatíveis com o nosso estágio evolutivo — bastando imaginar, a título de exemplo, Jesus, nosso modelo segundo a questão 625 de O Livro dos Espíritos, torcendo pela derrota de um time ou cobiçando um veículo, hipótese que evidencia o contraste entre o ideal e a realidade humana.

Em síntese, discursos que se apresentam sob títulos contendo a expressão “visão espírita” devem ser compreendidos, com maior rigor conceitual, nesse último sentido: como manifestações opinativas, representando aplicações individuais do conhecimento consolidado pela metodologia do Codificador e transmitido pelos Espíritos, mas que não passam de reflexos desses ensinamentos no modo de pensar e agir das pessoas.

À luz desse raciocínio, pode-se afirmar que a visão espírita sobre a divulgação doutrinária deve pautar-se pelo zelo com a sua higidez, de modo que console pela verdade, sem jamais perder de vista a caridade, em seu sentido mais amplo, verdadeira alavanca da evolução moral da humanidade.

ADOTAR É AMORE FAZ DIFERENÇA