Entrevistas

Adonay Andrade – A origem da Fala MEU!

Autor: Thiago Rosa

Imagine uma máquina de escrever. Imagine você digitando aquele “tlec tlec” na máquina. Imagine isso bem rápido como você faz hoje no teclado de um microcomputador. Imagine também o Fala Meu! de hoje saindo de uma máquina dessas? Já imaginou demais né?

O Boletim Fala Meu! completou um ano de retomada no mês de junho. Antigamente, alguns jornaizinhos do movimento jovem espírita, eram escritos numa dessas máquinas de escrever. Pra quem é mais novo, imaginar uma sala de datilografia hoje é quase impossível, aliás, chega a causar calafrios. Foi pensando nesta história que fomos atrás de um dos percussores do FM!, quando tudo começou lá atrás, bem no início.

Conseguimos arrancar uma entrevista com o Adonay Andrade. Fomos até a sede da USE em Santana para batermos um papo com nosso amigo, e vasculhar algumas histórias empoeiradas do movimento de Mocidade Espírita.

Antes de qualquer coisa, você sabe quando saiu a primeira edição do FM! ?

Pois é, foi em fevereiro de 1998.

E você sabe qual foi o primeiro texto de todos escrito no FM!?

Foi este: “ Fala Meu! Você deve estar se perguntando: mas o que é isto? Este é o mais novo órgão de divulgação do DM-Regional São Paulo. Este informativo nasceu para que você possa ficar por dentro do que está acontecendo no movimento espírita jovem em São Paulo e no mundo. Notícias, textos, dicas e informações sobre a Doutrina e o Jovem Espírita, com uma linguagem jovem e direta, tratando dos mais diversos assuntos com a seriedade necessária; é isto que o Fala Meu! trará a você e à sua mocidade todos os meses. Bom, esperamos que nossas metas possam ser alcançadas. Um grande abraço!”

 Como surgiu a ideia de se criar um boletim informativo para mocidades?

Por volta de 1994, quando voltávamos do Encontro Estadual de Dirigentes de Mocidades de Bauru, em conversa com o Randal, outro percussor, e mais outros jovens, que não me vem à mente agora, começamos a conversar sobre a ideia de criarmos um informativo. E a ideia inicialmente foi pegar uma folha do tamanho A4 e dividi-la em duas colunas e escrever, com máquina de escrever mesmo, onde colocaríamos as informações sobre o que estaria acontecendo nas mocidades e sobre os eventos também. Principalmente porque o Departamento de Mocidades (DM) sempre teve dois grandes eventos que era o EDMEC e COMECAP.

Como surgiu o “Fala MEU!” como informativo?

Começamos a estruturar o trabalho, só que não foi dado muita sequencia no início. Tempos depois o próprio Randal ficou a frente do trabalho de divulgação e foi aonde ele criou o Fala Meu!. A ideia começou a brotar em 94 naquele ônibus e, quase dois anos depois o trabalho deu prosseguimento.

Como que era o DM (departamento de mocidade) naquela época? Era como esta estrutura que vemos hoje?

Nosso trabalho basicamente era igual hoje. Tínhamos o diretor, a secretaria administrativa, secretaria de divulgação e de doutrina e as reuniões eram setorizadas.

Como que eram divididos os trabalhos do informativo?

Aqui na Regional eu posso dizer que o Randal fazia tudo sozinho praticamente. Eu sei que ele tinha pessoas que o auxiliavam. Em termo de DM, basicamente era ele. E ele colocou um pouco de humor no Fala Meu!, enquanto os outros eram muito certinhos, diferentemente do que o jovem gosta e é atrativo. Ele inovou bastante. Antigamente, por exemplo, o nome USE Regional São Paulo era CRE (Conselho Regional Espírita) e na época utilizaram o nome pra formarem um informativo da mocidade chamado CREATIVO. Aliás, lembra muito o Fala Meu! de hoje, tinha alguns recortes de gibis também, historinhas espíritas com personagens de gibis, algumas fofoquinhas sobre as pessoas que formavam os grupos de mocidade.

Como que era a divulgação? Conseguia abranger bastante gente?

Como a maior parte era enviada pelo correio, então as edições chegavam só para os dirigentes dos órgãos, que por sua vez deveriam ser multiplicadores. Hoje o e-mail consegue chegar em várias partes num piscar. Mas, mesmo assim eu prefiro algo no papel, algo que eu possa pegar e ter nas mãos. Na época não tinha nada desta tecnologia, nem sonhávamos com tanta facilidade assim. Por volta do ano de 95, quando começou a surgir os e-mails e ser mais popular, lembro que fui em uma reunião e alguém disse que a mocidade deles começaria a se comunicar por e-mail. O pessoal ao redor pensou meio assim: “nossa que sofisticação, por e-mail; que coisa moderna”. Hoje temos milhares de meios de se comunicar pela Internet.

Teve algum fato inusitado neste tempo todo?

O Randal chegou a divulgar o boletim para boa parte da imprensa espírita e, um dos jornais, teve uma carta de um leitor criticando o Fala Meu!. Ele criticava a pronúncia do nome do boletim. O leitor disse que era uma gíria e, onde se viu um jornal ter este tipo de nome. E o Randal respondeu, conforme direito de resposta, que era um boletim voltado para o jovem, para a mocidade e que era uma gíria normal. E o leitor tinha achado o nome como se fosse uma gíria vulgar. E Fala Meu! teve um significado que era: “Fala Mocidades Espíritas Unidas!”.

Antigamente o número de participantes jovens, em eventos, por exemplo, era grande?

Minha primeira COMJESP foi em 1982 e foi no bairro do Pacaembu aqui em São Paulo e naquele tempo tivemos cerca de 1300 participantes. E ainda por cima, o número de mocidades era bem menor. Mas havia divulgação ampla para quem quisesse participar. Depois pela dificuldade de organização, percebeu-se que a grande dificuldade é que as cidades que queriam montar não tinham estrutura. Então tiveram que criar um método para limitar pessoas, foi quando surgiu a ideia de fichas limitado por região.

Como é sua história no movimento espírita até hoje?

Bom, eu vim de uma família espírita. Eu falo que quando minha mãe foi fazer o meu sapatinho de lã, ela deve ter comprado a marca “ALã Kardec”. Então eu desde pequeno participei da evangelização infantil. Teve uma época que eu me afastei, quando tinha 12 anos, porque o pessoal queria cantar musiquinhas e eu não gostava de cantar, fiquei chateado e saí. Mas eu sabia que era importante aquilo tudo e, quando tive meus 17 anos voltei e entrei na mocidade. Tinha um primo meu que frequentava e eu quis ir. Lembro que na época, a mocidade que eu frequentava era diferente, tinha uma espécie de professor destacado que falava como se fosse uma palestra e nós só ouvíamos. A primeira COMECAP que eu participei foi em 1975, e foi assim: “Nossa mocidade domingo que vem chega mais cedo que vamos para COMECAP”, e eu nem sabia o que era isso. Comecap? Comer capim? Com o tempo nós assumimos a diretoria da mocidade, mudamos o formato e começamos a fazer dinâmicas e a conhecer o movimento, ver que não era só aquele mundo que vivia ali dentro.

Como você começou a fazer parte do DM?

No DM comecei a participar quando era ainda o CRE, lá em Santo Amaro. Na verdade eu já dirigia o DM da 17ª Zona, que hoje é a USE Tatuapé. Um dia me falaram que tinha uma tal reunião do DM. E eu: “DM, DM, DM… o que é isso DM?”. Bom, eu pensei, vou lá. E fui justamente numa reunião que acontecia uma eleição, nem eu sabia disso. No dia da eleição já fui eleito secretário de divulgação. Era aquilo, tinha mais cargos do que pessoas, quem entrava lá para pegar informação já saia com um cargo (risos). E eu nem sabia o que era pra fazer, não sabia nem o que era DM e acabei por aprender na prática, pelo estatuto, pelos regimentos e pela conversa com o pessoal.

Você chegou a assumir a diretoria do DM?

Dois anos depois de assumir o cargo, quando se aproximava da nova eleição, não sabiam ainda quem ia ser o diretor e aí indicaram o meu nome. Recusei na primeira vez, passaram mais dois anos e também recusei. Daí falaram que eu tinha que assumir, que era fácil ser o esquilinho para atirar a pedra, mas que chegou o momento de eu ser a vidraça também. Mas foi interessante, começamos a trabalhar da nossa maneira e convidei outras pessoas para ajudar. Foi praticamente no final dos anos 80 que assumimos a direção do DM, sucedendo o Armando Bega. Eu fui diretor do DM durante três anos e meio e terminamos a nossa atividade em 92, se eu não me engano, em uma COMECAP.

E esta história da mocidade independente?

Naquela época ainda tinha muito aquela ideia de Diretas Já, Eleições Diretas, e nós achávamos que a mocidade era meio independente. Hoje eu vejo que temos que crescer juntos, nem independente e nem dependente. Afinal de contas o departamento de mocidades, assim como outros departamentos, é um cargo de confiança dentro de uma diretoria. E nós achávamos que não. E havia a ideia de que tinha de existir uma Mocidade Autônoma, só que o pessoal esquecia que o tempo passava e o jovem deixava de ser o jovem que era até então.

Uma síndrome de Peter Pan?

É, daí ele perceberia depois que ele tinha 30, 40 anos e dentro de uma mocidade ainda, sem fazer nada demais? Depois, eu por exemplo, deixei de ser diretor, só acompanhei como acompanho até hoje. Eventos eu gosto bastante, como já dei cursos na USE de como organizar eventos. Não sou nenhum profissional na área, mas fiz cursos por fora, no SENAC e tudo com o pensamento voltado para a doutrina espírita. Minha última COMECAP mesmo foi em 2003, sediada pela USE Penha, há pouco tempo.

O Fala MEU! É algo importante para o movimento?

Acho que é essencial, mas deve ser viabilizada uma forma de ser impresso. É muito importante. Porque é algo que deve ser guardado e no e-mail, da mesma forma que é fácil ser passado, é mais fácil ainda ser apagado.

Fala MEU! Edição 42, ano 2006
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