Infância e Família

Alguns pais já nascem para serem filhos

Autor: Joelson Pessoa

“Honrar ao pai e à mãe não é somente respeitá-los, mas também assisti-los nas suas necessidades; proporcionando – lhes o repouso na velhice; cercá-los de atenção, como eles fizeram por nós na infância.” – (O Evangelho – Cap 14; Item 3)

Recentemente eu fui convidado para aplicar uma das oficinas disponibilizadas por um grande encontro de jovens espíritas e os organizadores me sugeriram o tema Educação dos Sentimentos, que me agradou sobremaneira.

Preparei-me para apresentar um bom trabalho onde desejava aplicar atividades que favorecessem o autoconhecimento, a identificação das Dores e dos Prazeres da Alma até alcançar o estágio do Auto–Amor para a obtenção de uma boa relação intrapessoal.

Entretanto, reparei com surpresa que a necessidade daquele grupo estava apontando em uma outra direção. Com o início do trabalho, participante por participante trazia à tona os diversos sofrimentos originados no relacionamento infeliz, com o pai ou com a mãe.

Uns desabafaram em pranto, as mágoas acumuladas, outros, entristecidos ou revoltados, compartilharam em detalhes com o grupo os seus desafetos com os pais. Pais alcoólatras, e ou, ausentes, mães amarguradas e que não dialogam. Estes foram os quadros apresentados pelos jovens participantes de 16 a 22 anos. Fiquei penalizado.

Sentido, me pego de surpresa e, ciente do papel que me cabia – o de orientar aqueles corações – recorri à instrução do Evangelho que trago impresso na memória (um dia o terei preservado no coração):

“Certos pais, é verdade, descuidam dos seus deveres, e não são para os filhos o que deveriam ser. Mas é a Deus que compete puni-los, e não aos filhos. Se a caridade estabelece que devemos pagar o mal com o bem, e amar até mesmo os nossos inimigos, quanto essa obrigação se faz ainda maior, em relação aos pais!” *1

Constatamos então que há jovens que, apesar de serem espíritas, insistem numa relação de desamor com seus pais, tratando–os com indiferença, agressividade ou mesmo com violência. Agindo assim, irrefletidamente, na base dos impulsos (como um cão indócil), ferimos a nossa própria consciência porque ela nos acusa de um procedimento mau. Afinal inserimo-nos num grupo de jovens espíritas, aprendemos belas lições sobre a bondade e a justiça de Deus, que o nosso interior suplica, ainda que bem baixinho por um proceder melhor.

Então um alerta: estamos estudando o espiritismo, mas será que estamos aprendendo seus ensinamentos na prática?

Seja o pai alcoólatra, ou a mãe uma criatura amargurada, são eles “(…) crianças como você, o que você vai ser quando você crescer.” *2

Nesta ótica, nós que estamos jovens, inflamados por sonhos, abastecidos de energias e ainda recebemos do Amor de Deus a oportunidade de conhecer um centro espírita, devemos nos esforçar para superar esse estado de desafeto e “cuidar” dos nossos papais e das nossas mamãe carentes que, possivelmente, se encontram bastante infelizes por carregarem desilusões e decepções ao longo de suas vidas.

Acompanhar a mãe ao supermercado, se interessar pelos assuntos do pai (ainda que seja o futebol), fazer mimos: trazer um vaso de flor para a mãe (sem precisar de datas para isto), trazer um jornal para o pai, deixar de badalar num sábado a noite para levá-los a uma pizzaria ou para ver um cinema… Você já pensou nisto? E caso tenha pensado, já fez?

A situação pode ser melhor e você pode experimentar fazer a sua parte, persistir. Nada pode ser melhor do que ter a consciência em paz por ter feito tudo o que estava ao seu alcance. E até onde vai o seu limite? Ora, se mexa pra saber!

Infeliz, portanto, aquele que se esqueceu da sua dívida para com os que o sustentaram na infância, e que frequentemente se impuseram duras privações para lhe assegurar o bem – estar! Ai do ingrato, porque ele será punido pela ingratidão e o abandono; será ferido nas suas mais caras afeições (…)” *3

É verdade que muitos de nós trazemos a alma culpada pelas ingratidões que praticamos nas vidas passadas, mas também é verdade que temos a Existência Atual, servindo de nova chance para desatarmos os nós dos ressentimentos antigos, da intolerância e da incompreensão. Comecemos já o exercício das atitudes afetivas para com os nossos pais, por mais difíceis que eles pareçam ser, pois é importante saber: eles gostariam de receber carinho tanto quanto você.

Aos dirigentes:

Prezado amigo, apurar nossa atenção para estas necessidades e torná-las a matéria de estudos e diálogos fraternos em nossas reuniões, será medida inadiável para que a mocidade colabore para projetar o centro espírita como entidade de utilidade pública na sociedade pelas consequências que produzirão nas famílias, reajustando-as através da regeneração da juventude.

Será que a mocidade ou o centro espírita estão munidos das ferramentas pedagógicas que vitalizam o processo educativo em sua pujança? Além de informar, estão as reuniões espíritas empreendendo as outras etapas para conduzir à educação moral: sensibilizar, conscientizar e vivenciar?

“Precisamos promover a casa espírita de mera escola de estudos sistematizados e planejados para um centro de convivência e treinamento para o desenvolvimento dos traços morais da regeneração.” *4

Se não dispomos ainda destes recursos é porque somente agora estamos nos dando conta da complexidade que envolve o processo educativo (ou reforma íntima) e, para aqueles que já sentem a necessidade de “algo mais” para o seu grupo, que tal tornar esta necessidade um assunto para as nossas reuniões de dirigentes? Que tal sair do nosso mundinho e procurar, pesquisar?

No dia 06 de Junho teremos o EDMEC compartilhando com as lideranças das mocidades os nossos aprendizados e descobertas a fim de corresponder, em algum grau, às expectativas de melhorias que aguardamos para as nossas reuniões e demais realizações doutrinárias.

(*1 E.S.E – Cap 14/3; *2 Música Pais e Filhos (Legião Urbana); 3 E.S.E – Cap 14/3; *4 Laços de Afeto – 2ª. Parte, cap.1)

Fala MEU! Edição 49, ano 2007

Comentar

Clique aqui para comentar