Autor: Felipe Gallesco
Há quem o veja
como um volume entre tantos.
Há quem lhe conte as páginas,
lhe pese o papel,
lhe admire a lombada
como quem admira
a casca de uma árvore
sem saber que, dentro dela,
a seiva continua viajando.
Mas não é aí
que ele começa.
Ele começa
na inquietação de quem o procura
com as mãos ainda úmidas
de revirar gavetas interiores.
Na coragem de quem aceita
que talvez tenha vivido
fazendo as perguntas erradas
— e que as perguntas erradas
também deixam cicatrizes
que não se veem no espelho.
Ele não promete fortuna.
Não oferece atalhos.
Não distribui milagres
como quem joga pétalas
sobre feridas abertas.
Ainda assim,
há quem o feche
com o coração mais leve
do que quando o abriu
— leve como uma pedra
que descobre, dentro de si,
um pouco de asa.
Porque ele reúne
um consolo que não enfeita as feridas
com flores de papel.
Uma razão que não calça botas de ferro
sobre o chão das dúvidas alheias.
Uma fé que não venda os olhos,
mas os acostuma
à luz das coisas que não brilham.
Uma esperança que aprendeu
a atravessar o escuro
sem esquecer o amanhecer.
Há quem o leia uma vez
e guarde apenas lembranças
— farpas de luz
que a memória não sabe costurar.
Há quem o releia
e descubra que a mudança
não estava nas palavras,
mas na sede que já não era a mesma.
E, no entanto,
há também o que o livro não resolve.
O que permanece em carne viva
mesmo depois da última página.
As perdas que ainda não se transformaram
em bondade.
Os silêncios que não encontram
tradução.
Há feridas que o conhecimento
não fecha —
apenas ensina
a não cutucar com a mesma fúria.
Ele atravessa gerações
como a chuva atravessa a terra
sem que ninguém precise explicar
o caminho da água
até a raiz.
Existe nele
a disciplina que não humilha
— mão firme que guia
sem quebrar os dedos.
A dúvida que não destrói
— apenas embaça levemente
a superfície das certezas
para que o reflexo
não se leve tão a sério.
A certeza que não aprisiona
— porta que se fecha,
mas nunca se tranca.
Existe o convite
para que cada ser humano
se torne melhor
sem deixar de ser humano:
essa argila que aspira ao mármore,
mas ainda carrega
o calor úmido da terra.
E quando a última página termina,
alguém fecha o volume.
Lá fora, o mundo continua
o mesmo desenho de sempre:
o mesmo pó sobre a estante,
a mesma luz atravessando a janela,
o mesmo rumor de passos na calçada.
Mas quem fechou o livro
carrega agora
um silêncio a mais por dentro.
Como um cômodo
que a casa desconhecia
e que o vento, sozinho,
aprendeu a habitar.
Nota
Desde os tempos mais antigos, a poesia tem sido uma ponte entre a alma e o infinito. No Espiritismo, ela encontra um campo fértil para inspirar, consolar e iluminar consciências, expressando em versos sentimentos que muitas vezes escapam à linguagem comum. Seja pela sensibilidade dos poetas encarnados ou pelas mensagens de origem espiritual que marcaram a literatura espírita, a poesia continua sendo uma valiosa ferramenta de reflexão, beleza e elevação do pensamento.


