Autora: Teresinha Olivier
Demorou para encontrar um lugar em sua casa para aquela cômoda. Era tão antiga que não combinava com absolutamente nada. Resolveu que ficaria em um canto do hall de acesso aos quartos. Limpou-a, encerou-a com todo o carinho e, dando uns passos para trás, ficou olhando para ela, admirando-a.
Desde menina gostava daquele móvel, que estava na família há três gerações. Sempre dizia para sua mãe que ele seria seu um dia. Seus irmãos não se opunham, nunca deram muita importância àquilo que eles chamavam de velharia. Era uma cômoda enorme, com gavetas fundas e pesadas, de madeira nobre com desenhos entalhados à mão.
Agora estava ali, na sua casa, mas as circunstâncias que o levaram até lá foram tristes. Em poucos meses perdeu sua mãe de um ataque cardíaco fulminante, e logo depois seu pai sucumbiu a um câncer com o qual lutava há três anos. A perda da esposa querida tirou seu ânimo de continuar lutando pela vida. A casa paterna foi desfeita, algumas coisas de valor distribuídas entre os filhos. A ela coube a cômoda.
Passados os meses de intensa tristeza, a vida foi retomando o seu curso. Uma noite, assustou-se com um ruído vindo do lado de fora do quarto. Acordou seu marido que, sonolento e a contragosto, foi se arrastando seguido por ela, e examinou a casa toda.
– Não foi nada, querida. Você deve ter sonhado – e caiu pesadamente na cama, dormindo instantaneamente.
Ela tinha certeza de que não havia sido sonho, o barulho fora real, mas procurou não pensar e dormiu.
Algumas noites depois, aconteceu novamente. Só que agora o ruído foi mais forte.
– Querido, acorde. Ouvi um barulho muito forte e tenho certeza que foi dentro de casa. Vamos verificar.
– Meu bem, não é nada. Eu preciso dormir…
– Eu tenho certeza que não foi sonho. Eu ouvi mesmo!
Ele sabia que não adiantava argumentar e, fazendo um grande esforço, levantou-se e abriu a porta do quarto.
– O vaso de cima da cômoda tombou! – Disse ele coçando a cabeça.
Aproximaram-se do móvel e verificaram que o vaso estava caído, a água escorrendo pela toalha e pingando no assoalho.
Ela estava bastante assustada.
– Como isso foi possível?
– Deve ter sido o Napoleão – disse ele bocejando – quantas vezes ele já entrou em nossa casa no meio da noite? Você deixou o vitrô da cozinha aberto?
Foram verificar e, de fato, estava aberto. Já acontecera várias vezes do Napoleão, o gato da vizinha, entrar sorrateiro e andar tranquilamente pela casa. Ela já havia tomado alguns sustos com ele, mas, apesar do seu atrevimento, era um gato lindo e muito querido pela sua família, por isso era sempre desculpado.
Enxugou a cômoda e o chão e foi dormir, não sem antes fechar o vitrô da cozinha.
– Chega de sustos…
Porém os movimentos e ruídos noturnos não pararam por aí…
Numa outra noite, seu marido e filhos já tinham ido deitar e ela foi até a cozinha verificar se tinha fechado o vitrô, o que passou a fazer todas as noites. Ao retornar ao quarto viu que uma gaveta da cômoda estava aberta e algumas toalhas que ela guardava ali estavam remexidas. Achou estranho que seu marido ou um dos seus filhos tivessem procurado alguma coisa no móvel, porque lá ela só guardava toalhas bordadas e uma pasta com documentos do seu pai.
No dia seguinte, perguntou a eles e ninguém havia mexido na sua cômoda, o que a deixou pensativa, mas não comentou nada. Ela sabia que seu marido ia dizer que ela se impressionava à toa.
Só que numa noite a coisa ficou realmente muito estranha. Não dava mais para ignorar que havia algo de errado. Acordou novamente com um barulho vindo da cômoda. Chacoalhou seu marido até ele acordar.
– É o Napoleão, querida, volte a dormir, por favor…
– Não é o Napoleão, eu fechei o vitrô. Levante-se, vamos olhar.
Saíram do quarto e o que viram deixou até o seu marido espantado. Uma das gavetas da cômoda estava bem aberta e as toalhas espalhadas pelo chão.
– O que você me diz agora? – Disse ela, olhando para aquela bagunça.
– Realmente isso é muito estranho. Não sei como explicar…
– O que devemos fazer?
– Não sei, querida, mas não diga nada às crianças para não assustá-las. Vamos nos deitar e amanhã pensaremos em alguma coisa.
Deitaram, mas ela não conseguiu dormir. Ficou pensando que havia alguma coisa com aquela cômoda e que ela precisava descobrir o que era.
No dia seguinte, depois que os filhos foram para a escola, seu marido perguntou:
– E agora? O que devemos fazer? Nem sei por onde começar!
Ela ficou pensativa por alguns momentos e, arregaçando as mangas, disse:
– Me ajude aqui, querido.
– Ajudar em quê?
– Vamos esvaziar essa cômoda para ver se encontramos alguma coisa.
– Mas você vive limpando e lustrando esse móvel! O que acha que vai encontrar dentro dele agora?
– Não sei, mas acho que é um primeiro passo. Tenho a impressão que algo ou alguém está chamando a nossa atenção para alguma coisa que tem a ver com esta cômoda.
– Você percebe o absurdo que está dizendo, querida?
– E você tem uma ideia melhor?
Ele pensou um pouco…
– Não!
Começaram a tirar tudo o que estava dentro das gavetas e examinaram uma por uma e não viram nada de diferente. Tiraram as gavetas, desencostaram a cômoda, olharam na parte de trás e tudo estava normal.
– Parece que está tudo em ordem com a cômoda, querida.
– Não sei, não…
– Meu bem, preciso ir trabalhar. Você vai ficar sozinha. Por que não vai para a casa de sua irmã? Eu passo na escola e pego as crianças.
– Não! Eu vou ficar em casa. Não se preocupe que ficarei bem.
Ao ficar sozinha, pôs-se a dobrar as toalhas para guardá-las e, ao arrumar a última gaveta, pegou a pasta de documentos, abriu-a e começou a olhar os papéis. Em meio a documentos dos seus pais, encontrou algumas fotos deles, abraçados e sorrindo, e sentiu uma saudade muito grande. Algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto.
– Por que tiveram que partir tão cedo…
Com grande surpresa, encontrou um envelope no meio dos documentos. Um envelope com o seu nome:
“Para Elaine, do papai.”
Ficou segurando aquele envelope por alguns segundos sem saber o que pensar.
– Meu pai me deixou uma carta! Não entendo…
Suas mãos tremiam, sentiu um amolecimento nas pernas e precisou sentar-se. Respirou fundo, abriu o envelope e começou a ler:
“Minha querida filha Elaine. Desculpe o seu pai por não ter tido a coragem de, enquanto vivo, revelar o que está nesta carta.
Há muitos anos cometi um grande deslize. Talvez o maior da minha vida. Traí sua mãe e, dessa traição, nasceu uma criança. Sim, você tem outra irmã que hoje já é uma moça, seu nome é Cristina.
Na época, contei tudo para sua mãe que, com a sua bondade, conseguiu me perdoar, mas nunca quis conhecer essa criança e nem que vocês soubessem da existência dela. Eu procurei respeitar a sua vontade.
A mãe dessa menina morreu quando ela tinha dois anos e eu passei a cuidar dela a distância, não deixando que lhe faltasse nada, sempre com o apoio de sua mãe.
Ela cresceu em um internato muito bom, recebendo uma boa educação.
Agora, que sei que o meu fim está próximo, preocupo-me com o seu futuro, pois completando dezoito anos, terá que deixar o internato.
Recorro a você, minha filha, pois sei do seu coração generoso…”
O relato continuou com outros detalhes do segredo que seus pais guardaram por tantos anos. Ela não saberia dizer por quanto tempo ficou sentada no chão, segurando aquela carta, pensando no que fazer e como contar à sua família.
Verificando novamente a data de nascimento daquela nova irmã que surgiu inesperadamente em sua vida, viu que ela estava completando dezoito anos naquela semana e entendeu a urgência dos avisos que vinha recebendo. A única explicação para tudo aquilo era que seu pai, onde quer que estivesse, estava preocupado com o destino de sua filha querida e, desesperadamente, procurou avisá-la.
O fato é que precisava fazer alguma coisa. E ela o faria.
Com o endereço na mão, foi até o internato. Conversou com a diretora da instituição e logo foi apresentada à Cristina. Era uma bela moça que ficou feliz com a sua chegada, pois dali a alguns dias teria que deixar o lugar onde crescera. Um pequeno quarto numa pensão e um emprego de balconista já haviam sido providenciados, mas, o receio de enfrentar o mundo fora dos muros daquele que até então tinha sido o seu lar, a deixava angustiada. Acostumara-se a sentir a proteção e o carinho do pai, que a visitava sempre e dizia que um dia ela iria viver entre os irmãos que não conhecia.
Elaine a levou para sua casa. À noite, numa reunião familiar convocada por ela, conversou com o marido, os filhos e os irmãos, não escondendo deles a forma como encontrou a carta. Achava que conhecendo a maneira pela qual sua atenção foi despertada para a existência daquela nova irmã, eles deveriam entender a importância de aceitarem Cristina na família.
– Se o papai usou de recursos tão estranhos para que eu soubesse da existência de Cristina, é porque é muito importante para ele que nós a acolhamos e a amemos.
Diante dos argumentos de Elaine, não foi difícil a aceitação.
Apenas ficou acertado que Cristina moraria em sua casa, ela não abriu mão disso.
À noite, deitada em sua cama, enquanto todos dormiam, Elaine pensava nos acontecimentos daquele dia e nas revelações fascinantes para sua vida.
Seu pai continuava vivo de alguma forma. E continuava preocupado com sua família que ele cuidara com tanto amor e dedicação. Ele levara consigo os seus sentimentos e anseios. E se ele continuava, isso significava que todos continuam. A vida continua. A morte não existe, na realidade, porque a nossa essência continua vivendo. Isso a fazia refletir sobre coisas que, até agora, não faziam parte de suas preocupações.
Estava assim pensando, quando ouviu um ruído.
– E agora, o que será?
Não chamou o marido, deixou-o dormindo sossegado. Saiu do quarto e, a primeira coisa que fez, foi olhar para a cômoda. Estava em ordem. Desceu as escadas e foi caminhando pela sala com cuidado e em silêncio. Um outro barulho em um canto da sala fez seu coração bater mais depressa. Estava começando a ficar com medo, arrependida de não ter acordado o companheiro.
De repente, o abajur do canto da sala caiu, fazendo um grande barulho. Ela deu um grito e um vulto passou quase voando na sua frente, indo em direção à cozinha.
Conseguiu acender a luz em tempo de ver o Napoleão saindo como um foguete pelo vitrô.
Quando todos chegaram assustados, acordados pelo barulho e pelo seu grito, ela os tranquilizou:
– Está tudo bem! Foi somente o Napoleão. Esqueci de fechar o vitrô.



