O jovem não quer diversão vazia, quer sentido

Autor: Felipe Gallesco

Se nunca tivemos tantas opções de entretenimento, por que tantos jovens se sentem cansados, ansiosos e com a sensação de que algo importante está faltando?

Quando a rotina está cheia, mas algo falta

A rotina de muitos jovens é intensa. Faculdade, cursos extras, trabalho ou estágio, pressão por produtividade, mensagens que não param de chegar, notificações constantes. A vida parece estar sempre em movimento, mas, por dentro, algo não acompanha esse ritmo.

No fim do dia, surge a tentativa de compensar: sair com amigos, consumir conteúdos rápidos, distrair a mente. Tudo isso traz alívio momentâneo, mas raramente preenche de verdade. A sensação de vazio costuma aparecer justamente quando o barulho externo diminui.

Não é tristeza profunda, nem necessariamente depressão. É uma inquietação silenciosa, difícil de explicar. Uma pergunta que insiste: “Qual é o sentido de tudo isso?”

Essa inquietação não é sinal de ingratidão ou fraqueza emocional. Pelo contrário: revela um jovem que começa a olhar além da superfície da vida.

O jovem não quer só curtir — quer entender por quê

Existe um discurso antigo que reduz a juventude ao prazer imediato. Mas essa visão ignora algo fundamental: o jovem é, por natureza, questionador. Ele não quer apenas viver experiências; quer compreender o valor delas.

A Psicologia chama isso de busca de significado. Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, observou que pessoas conseguem suportar grandes dificuldades quando encontram um propósito para viver. Para ele, o vazio existencial surge quando a vida perde sentido, não quando falta conforto (1).

O Espiritismo se aproxima profundamente dessa compreensão ao afirmar que a vida não é um acaso biológico. O Livro dos Espíritos ensina que o Espírito é criado simples e ignorante, destinado ao progresso contínuo (2). A encarnação faz parte desse processo educativo.

Quando o jovem percebe que sua existência tem continuidade e finalidade, começa a entender por que a diversão vazia não satisfaz. O problema não é se divertir, mas viver apenas disso.

Será que o incômodo que tantos jovens sentem não é, na verdade, um chamado para algo diferente?

Redes sociais, comparação e construção da identidade

As redes sociais fazem parte da vida dos jovens. Elas conectam, informam e entretêm. O problema surge quando passam a ser o principal parâmetro de valor pessoal.

A comparação constante com vidas editadas gera ansiedade, sensação de inadequação e medo de não estar vivendo “o suficiente”. O jovem começa a se perguntar se está atrasado, se escolheu errado, se é bom o bastante.

A Filosofia existencialista já refletia sobre esse conflito. Jean-Paul Sartre afirmava que o ser humano constrói sua identidade na relação com o outro, mas também alertava para o risco de viver prisioneiro do olhar alheio (3).

O Espiritismo amplia essa reflexão ao ensinar que cada Espírito percorre um caminho único, com experiências compatíveis com suas necessidades evolutivas (4). Não existem trajetórias iguais. Comparar-se constantemente é desconsiderar essa individualidade espiritual.

Se cada Espírito está em um ponto diferente da caminhada, por que insistimos em nos medir pelos mesmos critérios?

Faculdade, trabalho e o peso das escolhas

Escolher um curso, mudar de área, não se sentir realizado no trabalho, lidar com expectativas da família. Muitos jovens vivem sob a sensação de que não podem errar, como se cada decisão fosse definitiva.

Essa pressão gera medo, culpa e a sensação de fracasso precoce. No entanto, o Espiritismo oferece uma visão mais acolhedora da experiência humana. O Evangelho Segundo o Espiritismo ensina que as provas e dificuldades fazem parte do processo de crescimento espiritual (5).

Errar não significa falhar espiritualmente. Significa aprender.

A Neurociência reforça essa compreensão ao mostrar que o cérebro humano continua se desenvolvendo até aproximadamente os 25 anos, especialmente nas áreas ligadas à tomada de decisões e ao planejamento de longo prazo (6). A juventude é, biologicamente uma fase de experimentação.

Será que não estamos exigindo maturidade absoluta justamente no período em que aprender é essencial?

A casa espírita como espaço de diálogo e pertencimento

Quando bem compreendida, a casa espírita pode ser um espaço profundamente significativo para o jovem. Não como local de cobranças ou discursos distantes da realidade, mas como ambiente de acolhimento e construção coletiva.

Nos grupos de mocidade espírita, o jovem encontra algo raro: liberdade para perguntar, discordar, refletir e compartilhar experiências reais. O estudo de O Livro dos Espíritos ganha vida quando conectado a dilemas do cotidiano — conflitos familiares, escolhas afetivas, ansiedade, uso das redes sociais, medo do futuro.

O Espiritismo não infantiliza o jovem nem impõe suas ideias. Ele convida ao pensamento crítico e à responsabilidade pelas próprias escolhas. Isso gera pertencimento, não obrigação.

O jovem não se afasta da espiritualidade por falta de interesse, mas por falta de conexão com a realidade.

Servir também é uma forma de preencher o vazio

Além do estudo, a vivência prática faz diferença. A Psicologia Positiva aponta que pessoas envolvidas em ações solidárias apresentam maior sensação de bem-estar, propósito e satisfação com a vida (7).

O Espiritismo ensina isso ao afirmar que a caridade não é apenas doação material, mas atitude de amor em ação (8). Quando o jovem participa de atividades solidárias, projetos sociais ou ações educativas, ele percebe que pode contribuir mesmo em meio às próprias dúvidas.

Essa percepção transforma o vazio em movimento. A vida passa a ter direção.

Talvez o problema não seja a falta de diversão, mas a ausência de experiências que deixem marcas profundas.

Menos distração, mais sentido

O jovem não está perdido. Ele está procurando.

Procurando coerência entre o que sente e o que vive. Procurando algo que vá além do imediatismo e da aparência.

O Espiritismo não limita a juventude. Ele amplia horizontes, oferecendo uma visão de vida em que cada experiência tem valor educativo e cada escolha contribui para o crescimento do Espírito.

E você: o que hoje tem dado sentido à sua vida — e o que ainda está pedindo significado?

Referências

1. FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Vozes.
→ Vazio existencial e sentido da vida como motivação humana.

2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 76 a 132.
→ Natureza do Espírito, finalidade da encarnação e progresso espiritual.

3. SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada.
→ Construção da identidade e relação com o olhar do outro.

4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 115 e 132.
→ Diferentes graus de evolução espiritual.

5. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V – “Bem-aventurados os aflitos”.
→ Provas, sofrimento e aprendizado espiritual.

6. National Institute of Mental Health (NIMH).
→ Desenvolvimento cerebral na juventude.

7. SELIGMAN, Martin. Florescer.
→ Bem-estar, propósito e engajamento.

8. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV – “Fora da caridade não há salvação”.
→ Caridade como prática transformadora.

A IMPORTÂNCIA DOESTUDO E O LIVRO

Como aprender uma ciência sem realizar seu estudo profundo? Como realizar esse estudo profundo sem mergulhar na leitura dos livros que abordam essa ciência? Essas perguntas também se referem ao Espiritismo ou Doutrina Espírita, que é uma ciência e uma filosofia com vastas consequências morais, portanto, não se pode aprender o Espiritismo com leituras...

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