Vida Eterna

Autor: Fernando Hora

Narra-nos Lucas, no capítulo dezoito: “Certo homem importante lhe perguntou: — Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. A beleza e a profundidade dos versículos seguintes talvez nos ofusquem a atenção a um outro ponto na pergunta: o que significa exatamente “herdar a vida eterna”?

Certa feita, um mineiro, ao entrar em uma lanchonete em São Paulo, fez seu pedido: um prato de torresmo e uma dose de pinga. Um cliente ao lado, admirado, comentou:
— “Meu”, assim você não vai ter vida longa!

— “Uai, sô”, mas eu agora tô querendo é vida larga! Não tô pensando em “lonjura” não!

Sem entrar no mérito do destino dos sistemas digestório e cardiovascular do nosso irmão, o termo que ele usou nos faz refletir; é uma bela metáfora.

Quando alguém faz aniversário, cantamos: “Muitas felicidades, muitos anos de vida”. Allan Kardec desencarnou aos 64 anos — relativamente jovem — mas deixou na Terra um verdadeiro tesouro para a humanidade: a Codificação Espírita. Talvez seja este o melhor significado para a “largueza” mencionada pelo mineiro. Viver com qualidade e realizações, colecionando amizades para o futuro e desfazendo desafetos do passado, é certamente mais importante do que apenas atravessar um século de existência material.

Um materialista talvez discorde e, sob a ótica de suas crenças, ele não estaria desprovido de razão: se não há nada além da fronteira de cinzas, de que serviriam as construções morais e as memórias? É justamente essa a grande decepção de muitos companheiros que usam o niilismo como baliza: ao desencarnarem, são tomados pela sensação de tempo perdido.

Ao estudarmos a Doutrina Espírita, temos a percepção de que possuímos “muitas vidas”. Antes do Espiritismo, a explicação religiosa predominante era a de que, ao nascermos, recebíamos uma alma “nova em folha”. Nossa sorte eterna dependeria exclusivamente do que fizéssemos entre o nascimento e a morte, com o risco de uma eternidade nas chamas da geena.

Os Espíritos, contudo, ajustaram essa informação. Esta não é nossa primeira existência na matéria e teremos outras tantas até que evoluamos moral e intelectualmente. Só assim habitaremos mundos menos grosseiros, menos suscetíveis às mazelas da densidade. São as “muitas moradas” da casa do Pai.

Convidando o leitor a um exercício de abstração gráfica: se desenhássemos uma linha do tempo desde a nossa criação em direção ao infinito, representássemos nossa vida espiritual por intermédio de barras na parte de cima da linha e, da mesma forma, a vida material abaixo dela, a tendência seria desenharmos segmentos de barras, alternadamente, intercaladas na parte superior e inferior da linha do tempo. Isso ocorre porque, quando encarnados, relegamos a vida espiritual a um segundo plano e achamos que ela é interrompida enquanto estamos encarnados, recomeçando apenas após nossa desencarnação.

Esse diagrama está incorreto! Achamos que somos o Pedro ou a Maria, quando, na verdade, estamos temporariamente como P. ou M.. Somos o Espírito que já esteve na Terra como John, Murashima ou Hernandez, continuando a sê-lo também entre essas existências. Dessa forma, a representação correta desse diagrama seria uma barra contínua na parte superior, e não segmentos de barra intercalados entre os da existência material da parte inferior. Tanto é que, ao dormirmos, emancipamo-nos do corpo enquanto este se refaz organicamente, retomando por breve período de tempo a vida na condição de Espíritos.

Olhando esse novo diagrama, percebemos que, na verdade, temos uma só vida — a Vida Maior, a vida verdadeira. As existências materiais são capítulos dessa vida única; não têm fim em si mesmas, mas são ferramentas pedagógicas onde passamos pelas provas necessárias à evolução.

Termos como “vidas passadas” ou “vida futura” são recursos didáticos utilizados pelo Codificador para facilitar nossa compreensão. Em uma leitura sistematizada, percebemos que, a rigor, não temos “várias vidas”, e sim uma única com várias fases — e o que produzimos em cada uma incorpora-se à vida verdadeira, ao nosso patrimônio espiritual — tanto progressos quanto dívidas. E, pela misericórdia divina, o esquecimento temporário nos permite recomeçar e reparar o passado com mais liberdade.

A compreensão dessa solidariedade entre as diversas existências é fundamental para compreendermos a Justiça Divina e os preceitos do Cristo, que passam de dogmas religiosos para agradar uma divindade a sentenças lógicas cuja observação é o caminho para eliminarmos nossas imperfeições que nos causam tanto sofrimento. É por essa e outras razões que o Codificador afirma que o Espiritismo, bem vivido e bem compreendido, facilita nossa reforma íntima, conduzindo-nos à condição de homem de bem — razão de ser da Doutrina.

Retornando, por fim, à metáfora do nosso amigo mineiro: que nossa existência material seja o mais “larga” possível. Que nela caiba uma enormidade de tesouros transportáveis para a vida eterna, adquiridos através da lei de justiça, amor e caridade — pois, como bem sabemos, fora da caridade não há salvação.

A CARIDADESEGUNDO JESUS

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